segunda-feira, 25 de abril de 2011

Breve Comentário sobre o Livro Vermelho de Jung


Depois de um boom de posts me recolhi para mergulhar num universo maravilhoso, O Livro Vermelho. Neste post quero fazer um comentário sobre o capitulo 1 ”Líber Prímus”.
A edição é imponente, vermelho-viva, cheia de belas imagens pintadas por Jung e uma caligrafia detalhada e bem feita. Um livro que deve ser lido sobre uma mesa sem nenhum copo por perto para que, não haja nenhum risco de flagelá-lo.




Louca para fazer anotações múltiplas ao longo da leitura tive que deter e substituir o lápis ou qualquer caneta por post-it que distribuí ao longo no livro todo. A introdução é muito didática, na medida em que o autor revela a trajetória de Jung ao longo dos anos fica claro de onde vieram suas teorias: complexos, anima, inconsciente coletivo, imaginação ativa e sonhos.
No Líber Novus ou Livro vermelho fica marcada a influência na trajetória de Jung da religiosidade recebida por seu pai somado às suas experiências com transes mediúnicos e visões que obteve mais tarde.


Jung sentia-se muitas vezes à beira da loucura. Quando ele percebeu que suas visões e sonhos com catástrofes, mortes e rios de sangue estava correlacionada ao estopim da Primeira Guerra aliviou-se. Assim percebeu que nenhuma esquizofrenia o ameaçava. Era a precognição de um evento coletivo, o sonho “grande”. A indução de fantasias privadas espontâneas e experimentos coletivos foi um dos esforços de Líber Nóvus.


Jung não chega a concluí-lo para publicação, era mais um diário de bordo para suas experiências. Ele era precavido e cauteloso ao mostrar estes escritos. Havia um temor de ser “mal interpretado” o que referencio isso ao tom profético presente em suas linhas. Durante todos esses anos poucos tiveram acesso a este material, somente alguns alunos e colegas mais íntimos como Stockmayer e Jaffé que chegaram a ler, mas as primeiras cópias marcadas demoraram a ser expostas a um grupo maior. No início do Líber Primus  a linguagem não usual divida em três camadas de compreensão parece estranha inicialmente e muito metafórica mas não leva muito tempo para que o leitor mergulhe junto com ele em seus diálogos com a alma. Permaneci cinco horas sentada sobre o livro em posição desconfortável e hipnotizada. Quando o bloquinho de post-it havia acabado dei por certo fechar o livro e me deitar.


Através de seu encantamento por Nietzsche, Dante e Virgilio, Jung se inspira e se permite escrever sem pudores acadêmicos esta obra que ele chamava de diário.Sua habilidade motora fina para desenhos incrementam o texto que leio indo e voltando, do original à tradução.



No inicio há os dois capítulos do Livro Negro onde junto com “fausto” ele mergulha na sua própria escuridão e no reencontro com sua alma pela via do coração. Através da metáfora do deserto “o sol dos desejos não satisfeitos” ele perpassa pela necessidade de paciência e do conhecimento da loucura divina.
Traz à tona a figura do assassinato do herói e a necessidade de matar os deuses de dentro de si. O herói teme, pois quando ele está no inferno, ele é o inferno e toda a sua consciência pode regredir aos instintos.



 O capitulo Mysterium Encontro é maravilhoso. Através da teoria do Inconsciente Coletivo e da figura arquetípica de Elias e Salomé Jung brinca de alquimista entre os conceitos de logos e Eros trazendo a figura de conjuctio. Entre os dois conceitos encontra-se com o terceiro: as duas serpentes companheira de estrada do herói. Ela ensina sobre a adversidade incondicional da natureza dos dois princípios como um caduceu de Mercúrio.


O princípio masculino aliado ao feminino em movimento constante de transformação como uma “roda da fortuna”. Esta união dá origem ao “filho”, que é o sentido supremo, o símbolo, a passagem para uma nova criatura. O resultado do andrógino diante da criação.



Este livro provoca múltiplas sensações no leitor, se este for um amante de simbologia e mitologia torna-se um prato cheio. Eu, como leitora noturna convicta tive sonhos fantásticos. Tive até vontade de voltar a anotar todos eles, exercício que Jung indicava muito aos seus pacientes. Outro exercício interessante descrito no livro é o fechar os olhos e deixar conduzir-se pelo que se apresenta de forma literal só depois tentar significar. Nesta obra exposta após longos anos em cofres da famíia mostra como Jung se colocou como objeto de observação numa belíssima investigação do self, dos arquétipos e de onde a imaginação pode levá-lo.
            Muitos críticos falam de forma polêmica sobre esta publicação em relação a sua obra anteriormente publicada, mas vou me deter até terminar de ler o livro para melhor poder avaliar a obra como um todo.
Até o próximo capítulo!

Links interessantes sobre o livro vermelho:

No Rubicão:

Philemon Society:

 Amostra do Livro Vermelho disponibilizado pela Vozes:

Na Rubedo:

Associação Brasileira de Psicologia Analítica:
http://sbpa-rj.org.br/site/?page_id=744

4 comentários:

  1. Legal ler as suas primeiras impressões. Eu já o li todo e estou animado a uma 2ª leitura. Eu ousei fazer como nos outros livros que tenho: anotações a caneta mesmo, se bem que somente na tradução em português. São minhas "marcas de dentes" na ânsia de devorá-lo... (rsrsrs). É um dos melhores livros que tenho. Parabéns pela aquisição. Vc irá gostar muito.

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  2. Lindo post!
    Como sempre me deleito em suas letras ;)

    Um dia ainda chegarei a ler Jung...
    Aguardo ansiosa pelos comentários dos próximo capítulos...

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