quinta-feira, 24 de março de 2011

A BARBA NEM É TÃO AZUL ASSIM: UMA EXPERIÊNCIA NA DELEGACIA DA MULHER




Segunda feira, 08h30 da manhã e já se vê na Delegacia da Mulher de Curitiba algumas mulheres sentadas, desoladas, sorumbáticas. Outras, verborrágicas, ansiosas andam de um lado para o outro. Muitas crianças gritam no recinto. Ao mesmo tempo em que proferem sua dor há um silêncio, a mancha da violência marcando mães e filhos.
O relacionamento sonhado, idealizado, veio parar na Delegacia. O Príncipe encantado vira fera e torna-se o algoz.
Após a queima de sutiãs, o movimento feminista e a intensa informação sobre a violência contra a mulher, principalmente com o advento da Lei Maria da Penha, ainda vivemos uma época em que existem mulheres dependentes e submissas aos seus companheiros. Claro, não se pode ter a ilusão de que algo instituído há milênios iria cessar em algumas décadas de avanço. Às vezes parece algo da própria natureza do feminino que ainda se opõe à visão da mulher moderna. A posição da mulher dentro de uma família tradicionalmente é a de conservar e cuidar. Então, como ela agora deveria se revoltar e num gesto drástico entregar o marido à polícia?
A sociedade, apesar de impulsionar a mulher para o mercado de trabalho, às universidades e aos cargos de alto escalão ainda mantém a mulher atrelada ao modelo tradicional - ela deve ser “boazinha” e conservar os olhos fechados. Até pouco tempo o homem detinha total propriedade sobre a mulher. O casamento tradicional na Igreja Católica é um rito patriarcal. O pai, proprietário e guardião da pureza da filha, a entrega formalmente a outro homem que lhe dá seu nome.
A mulher, no papel de ingênua, deve sempre ter um herói ao lado pronto para salvá-la. Não é assim que acontece nos filmes de ação? Apesar da intuição e do instinto de preservação inatos as mulheres se envolvem em relacionamentos potencialmente perigosos; o fio de Ariadne torna-se um novelo de lã emaranhado e ela não enxerga a saída do labirinto. Heróis de um cenário cor-de-rosa transformam o sonho em pesadelo personificando então o homem sinistro, de amante a predador.


A junguiana Clarissa Pinkola Estés com livro Mulheres que Correm com os Lobos(1992) busca o resgate do lado instintivo da mulher expondo a psique feminina de forma arquetípica por meio de antigos contos. Ela inicia com a famosa história do Barba Azul, de Charles Perrault, que conta sobre um rico e temido aristocrata, dono de uma assustadora barba que de tão negra chegava a azular. Como um conto do século XVII pode ainda ser perfeitamente aplicado nos dias atuais? O homem sinistro nos sonhos das mulheres é inato e pode se materializar no papel de maridos, namorados e conviventes. “O Barba Azul simboliza um complexo profundamente recluso que fica espreitando as margens da vida da mulher, observando, à espera de uma oportunidade para atacar” (ESTES, 1992).



Pergunta-se às mulheres atendidas na delegacia: Vocês sabiam quem era este homem antes de entregar-se a ele? A maioria esmagadora diz sim. No conto a esposa do Barba Azul é a irmã mais nova, símbolo da ingenuidade feminina, ”essa aceitação do casamento com o monstro é na realidade decidida quando as meninas são muito novas, elas são ensinadas a não enxergar e, em vez disso, a "dourar" todo tipo de esquisitice, quer seja agradável quer não.” (ESTES, 1992).
Ela inicialmente não gosta do Barba Azul e fareja o perigo mas é seduzida pelos seus encantos e diz às irmãs mais velhas: "Bem, até que a barba dele não é tão azul assim" e ignorando sua intuição deixa que ele a despose. A maioria das mulheres, como já foi dito, sabe da natureza terrível de seus companheiros, mas se mantém cegas e na esperança de que “um dia ele vai mudar”.


Um dia Barba Azul resolve viajar e avisa sua esposa. Oferece todos os luxos de seu castelo e todas as suas chaves, desde que ela se mantenha obediente: havia uma pequena chave de acesso a um dos quartos que ela jamais poderia usar. A ilusão da liberdade. Segundo Estes (1992) “proibir uma mulher de usar a chave que leva à consciência é o mesmo que lhe arrancar a Mulher Selvagem, seu instinto natural de curiosidade e sua descoberta do que se esconde por baixo.”
Ela deseja conhecer a verdadeira natureza deste homem. Trazer luz a este quarto escuro e desconhecido de sua consciência. Afinal, o que está por trás da porta?



Apesar das mulheres saberem exatamente quem são seus companheiros neste momento ainda estão cegas pela ingenuidade ou por haver soterrado sua intuição. Mas há algo dentro delas gritando: a necessidade de farejar. Isso significa lançar mão de suas capacidades e usar a chave. Era nesse verdadeiro quarto dos horrores que Barba Azul escondia os cadáveres esquartejados das sucessivas mulheres com quem se casara, mas que invariavelmente assassinara. Ela desvela esse homem “e descobre a horrenda carnificina em algum ponto da sua vida profunda”. Essa descoberta suscita na mulher duas reações diferentes: o medo de ir embora e o medo de ficar. Quando elas desvelam a natureza terrível de seus companheiros tentam por diversas vezes negar o fato, mas sua energia vital continua se esvaindo e isso pode facilmente levá-las a morte. No momento em que a esposa do Barba Azul abre a porta do quarto secreto e encontra os cadáveres das antigas esposas, no susto acaba derrubando a chave.



E essa chave, esse minúsculo símbolo da vida, de repente não pára de sangrar, não pára de soltar o grito de que há algo de errado. Uma mulher pode tentar se esconder para não ver as devastações da sua vida, mas o sangramento, a perda da energia da vida, continuará até que ela reconheça a real natureza do predador e o domine (ESTES, 1992).
As mulheres tentam “apagar”, “limpar” esse conhecimento, mas depois de aberta a porta não é possível retornar. Não se pode mais apagar a luz, ela deixou de ser ingênua. Ela já conhece o caráter terrível do homem e o seu poder destrutivo e, por mais que tente retornar a cegueira e à esperança que um dia ele irá mudar, há algo aceso dentro dela que não se apaga facilmente. Ela dever agir em prol de sua própria vida. Muitas mulheres neste momento se encontram desvitalizadas e com uma nítida sensação de que não há saída, estão presas dentro de si mesmas, hipnose. Elas se acostumam com o terror diário de sua relação. Este perfil do “agressor” é muito marcado. São homens em geral possessivos, ciumentos e controladores. Usam a força física para diferenciar o homem (forte) da mulher (frágil). A coerção e o jogo de poder estão muito presentes e muitas mulheres com seu instinto de conservar e cuidar da família acabam se mantendo atrelada a estes homens.
A personagem do noivo animal é um marco na psique, representando algo perverso disfarçado como algo benévolo. Essa caracterização ou algo dela aproximado está sempre presente quando uma mulher nutre pressentimentos ingênuos acerca de alguma coisa ou de alguém. Quando uma mulher tenta ignorar os fatos das suas próprias devastações, seus sonhos noturnos gritarão avisos para ela, avisos e exortações para acordar! Pedir ajuda! Fugir! Ou dar o golpe final! (ESTES, 1992)
A tendência das mulheres de tentar “limpar a chave” e esconder a descoberta terrível de si mesmas é muito relevante dentro da realidade da Delegacia da Mulher. Fazem o Boletim de Ocorrência e depois se arrependem, voltam atrás na decisão de abrir o Inquérito Policial contra seus companheiros. Tentam desesperadamente apagar aquele fato, mas “agora o self ingênuo tem conhecimento de uma força assassina solta dentro da psique. Trata-se, porém, de algo muito mais sério, pois o sangue representa o extermínio dos aspectos mais profundos e íntimos da vida criativa e da alma. Ele não mancha só a chave; ele escorre pela persona inteira” (ESTES, 1992).
A culpa é tão estarrecedora e profunda. Ela devia ter obedecido. Agora a situação estava fora de controle. A mulher agredida se acusa de ser a principal responsável pela agressão que está sofrendo, e dessa forma, consegue incutir em seu psicológico uma culpa muito grande. “Na maioria dos casos, a mulher sente que, se apenas se mantiver fiel ao velho modelo um pouco mais, ora, sem dúvida a sensação paradisíaca que procura aparecerá no próximo batimento do seu coração” (ESTES 1992).


Quando a mulher percebe que caiu numa armadilha e que não poderá voltar atrás ela mal consegue tolerar a situação. Ela inclusive se culpa pela descoberta feita e sabe que feriu a um preceito básico: ela deveria ser obediente e boazinha e por isso merece sofrer, ou no caso do Conto de Perrault, morrer. Depois de superar diversos medos internos e externos a mulher que consegue chegar até uma delegacia supera mais uma barreira: o silêncio, o medo de falar sobre a violência e dificuldade de admitir o fracasso no sonho cor-de-rosa idealizado.
Quando Barba Azul retorna da viagem e percebe que a esposa violou seu quarto secreto decreta que ela deve morrer.



A esposa, já estratégica, pede um tempo para rezar e ele permite. Ali ela convoca seu feminino selvagem, instintivo e sem amarras. Um momento de reflexão para digerir e pensar em como agir. Este tempo estratégico é utilizado pelo setor de psicologia dentro da Delegacia: após o boletim de ocorrência ela aguarda em média duas semanas e participa de um grupo para saber se irá ou não representar contra seu suposto agressor. Neste momento ela reúne todas as suas forças para pensar racionalmente em qual a melhor decisão a se tomada.

Muitas das decisões são pautadas no medo. Segundo estatísticas da Delegacia da Mulher 60% das mulheres que fazem boletins de ocorrência estão na faixa de 31-50 anos e 83% já sofreram violência anteriormente. Este dado é extremamente relevante, pois nota-se o quanto estas mulheres demoram a procurar ajuda e o quanto ainda estão inertes e cegas diante das agressões seus companheiros. Após a agressão aceitam suas desculpas, como que “recuperando” aquela ingenuidade inicial fazendo com que o ciclo da violência se mantenha. Mas em algum momento, como já foi dito acima, a atitude torna-se imperiosa, sua vida está correndo risco. Hoje os índices de representação criminal estão acima da média (61%), o que nos leva a concluir que uma parte das mulheres estão em busca dos seus direitos. Mas, como dar o grito?
A mulher convoca seus irmãos psíquicos. Eles são os propulsores mais musculosos, os elementos de natureza mais agressiva da psique - seu animus. São a força interior à mulher que sabe agir quando chega a hora de matar. A primeira consiste na neutralização na psique da mulher da enorme capacidade paralisante do predador. A segunda é a substituição da virgem de olhos vidrados por uma de olhos vigilantes, com um guerreiro de cada lado se ela precisar convocá-los. (ESTES, 1992)
Essa personificação do animus está ligada a capacidade da mulher de não ser mais boazinha e neutralizar o predador. Na prática simboliza a denúncia. Seja para a Polícia Militar em sua própria residência ou após o fato na própria delegacia da mulher. Esse animus agora desperto faz com que ela saia da posição de vítima.


Hoje, com o advento da Lei Maria da Penha, há uma lei pesada que encarcera o agressor. E faz com que as mulheres fiquem numa posição muito ambivalentes: representar ou não representar? Mesmo com a ameaça à vida elas não desejam “matar” esse companheiro, nem prendê-lo. E está é a ultima tarefa da mulher: “a de permitir que sua natureza de vida-morte-vida desmanche o predador e o leve embora para ser incubado, transformado e devolvido à vida”. (ESTES, 1992)


No conto ela consegue matar o Barba Azul, mas como as coisas acontecem na realidade? Muitas mulheres, assim como nossa protagonista, conseguem se desvencilhar desta armadilha. Muitas delas entram num estado de torpor e sabem que se que "se ficar o bicho pega, se correr o bicho come”. Se ela não escapar, o homem sinistro se transforma em seu carcereiro e ela, em sua escrava. Se ela conseguir escapar, ele a perseguirá sem trégua, como se fosse seu dono. “As mulheres temem que o homem sinistro as encurrale para forçá-las novamente à submissão”. (ESTES, 1992)
Infelizmente os índices de mulheres agredidas por seus companheiros são muito altos após a tentativa de separação. A citação de Estes é o retrato do sentimento destas mulheres quando resolvem fazer uma denúncia. Elas temem a sua fúria sanguinária, mas dividem-se entre o medo de ir e o medo de ficar.
Hoje os inquéritos policiais são abandonados e retirados, pois muitas mulheres são coagidas e seduzidas por seus companheiros a manter-se no papel de vítima, de ingênua, de boazinha. Ilusoriamente elas tentam se enganar novamente “mas a barba dele nem é tão azul assim” minimizando a violência sofrida.
A cura só pode vir com a aceitação da consciência já adquirida “veja o que estiver vendo; ouça o que estiver ouvindo” (ESTES, 1992). Use a chave.



A Mulher Selvagem ensina às mulheres quando não se deve ser "boazinha" no que diz respeito à proteção da expressão de nossa alma. A natureza selvagem sabe que a "doçura" nessas ocasiões só faz com que o predador sorria. Quando a expressão da alma está sendo ameaçada, não é só aceitável fixar um limite e ser fiel a ele; é imprescindível. Quando a mulher age assim, não poderá haver intromissões na sua vida por muito tempo, pois ela reconhece logo o que está errado e tem condições de empurrar o predador de volta ao seu devido lugar. Ela já não é mais ingênua. Ela já não é mais uma meta ou um alvo. E é esse o antídoto mágico que afinal faz com que a chave pare de sangrar (ESTES, 1992).
A mulher “reconstituída” de uma relação-problema em que houve agressões sistemáticas cria uma aversão natural pelo relacionamento amoroso, pela possibilidade de um novo parceiro, sonho frustrado. A imagem do masculino fica maculada. Como curar essa imagem? Como confiar em alguém com os instintos tão testosteronizados? A cura deve ser completa: feminino e masculino. No conto a irmã mais nova casa-se novamente e herda toda a fortuna de seu terrível marido. Um final feliz, de integração, conjunctio. Mas o ciclo da violência só se desfaz quando a mulher consegue matar esse predador dentro dela, sem reincidências. Ela não tem mais “vista fraca”. O conto é a própria elaboração desse despertar, desse “enxergar o mundo”.


No caso dela manter esse homem ao seu lado necessitará ter na ponta da língua As Mil e uma Noites de Xerazade, para manter-se viva, noite após noite. Segundo Estes (1992):
Talvez o mais importante seja o fato de a história do Barba-azul trazer ao nível do consciente a chave psíquica, a capacidade de fazer qualquer pergunta a respeito de nós mesmos, da nossa família, dos nossos projetos e da vida como um todo. Depois, como um ser selvagem que tudo fareja, que cheira em volta, debaixo e dentro para descobrir o que uma coisa é, a mulher está livre para encontrar respostas verdadeiras para suas perguntas mais profundas e mais sombrias. Ela está livre para arrancar os poderes daquilo que a assolou e para voltar esses poderes, que antes foram empregados contra ela, para os excelentes usos que lhe forem mais convenientes. Assim é a mulher selvagem. (ESTES, 1992).
Esta é a saída, mas como fazer com que uma mulher recupere essa energia, vitalidade e ímpeto que lhe havia sido roubado? Ao contrário da esposa do Barba Azul há algumas mulheres que nunca ousam abrir a porta, permanecem cegas apesar de farejar o perigo. Ser livre é abrir mão do sonho de uma família, de um casamento e de um projeto de vida - até a violência é uma forma de relação. Mas em toda escolha há ganhos e perdas. Representar ou não representar? Eis a questão. Muitas mulheres desistem no meio do caminho e ressuscitam o Barba Azul em sua psique, mesmo sabendo que a denúncia é a única forma de conter a violência e desconhecem a gravidade do risco, seja emocionais ou físicos.
Há duas saídas para o ciclo da violência. Na primeira fase em que, apesar de ingênua fareja o perigo sob a forma de ameaças. Na segunda, diante da própria agressão desvela o segredo do predador e o denuncia. Na terceira fase do pedido de desculpas, da lua de mel em que ela pode revelar (velar novamente) o Manto de Isis, como um segredo, uma cegueira ou seguir seus instintos tornando-se dona seu próprio caminho, sua individuação. E quem sabe encontrar subterfúgios para um novo começo.



Araiê




REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ESTÉS, C., P. Mulheres que correm com os lobos. Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1992.













4 comentários:

  1. Olá, por favor, você poderia me dizer qual é o ilustrador das figuras 5 e 9????
    me mande por email: anappel@gmail.com
    obrigada!!!

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